Acordo com Emirados Árabes ampliará atuação internacional da Embrapa

O presidente da Embrapa, Celso Moretti, definiu acordo de cooperação com o International Center for Biosaline Agriculture (ICBA) para atuação conjunta em diferentes áreas. O ICBA é um centro internacional de pesquisa agrícola instalado nos Emirados Árabes Unidos (EAU) e voltado à melhoria da produtividade e sustentabilidade em áreas marginais e salinas com uma forte atuação em toda a região do Oriente Médio e também na África.

Para a Embrapa, o acordo, a ser assinado nas próximas semanas, significa a oportunidade de obter financiamento, vender tecnologia e serviços, realizar cooperação técnica e apoiar empresas brasileiras no exterior, inclusive na África. Também existe a perspectiva de instalação de um escritório nos Emirados Árabes, em parceria com a Apex-Brasil e com o apoio do governo local. A Apex-Brasil atua para promover os produtos e serviços brasileiros no exterior e atrair investimentos estrangeiros para setores estratégicos da economia brasileira.

Os detalhes foram definidos durante a presença de uma delegação brasileira nos Emirados Árabes entre os dias 18 e 21. A missão tem relação com a estratégia de fortalecer a atuação da Embrapa na África. As ações têm sido acompanhadas pela ministra Tereza Cristina, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e fazem parte de uma agenda ampla que vem sendo desenvolvida com o Ministério da Segurança Alimentar dos Emirados Árabes Unidos, na pessoa da ministra Mariam Al Meheiri, que se reuniu duas vezes com a delegação brasileira durante os quatro dias da missão.

Aproximação começou em 2018

A visita e os acordos dão sequência a passos que iniciaram em 2018, quando Celso Moretti esteve nos Emirados Árabes para participar de evento focado em agricultura e, em outra ocasião, para reunião do Foro Econômico Global. Nas duas oportunidades a ministra Meheiri foi convidada para visitar a Embrapa. Em janeiro de 2019, aproveitando a presença no Brasil para a posse do presidente Jair Bolsonaro, Mariam Al Meheiri, esteve na Sede e na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia com uma comitiva que incluía diplomatas.

Na ocasião de sua visita à Embrapa, a Ministra reafirmou a intenção de atrair investimentos para o setor agrícola daquele país, responsável por apenas 0,7% do PIB de um País cuja economia é baseada em petróleo. Seu objetivo, disse, era despertar o interesse da população jovem para a agricultura.

Al Mehairi demonstrou interesse em conhecer sobre a participação do setor privado no orçamento da Embrapa e revelou que a segurança alimentar é uma das prioridades atuais para os Emirados Árabes Unidos, já que mais de 90% das espécies utilizadas na alimentação vêm de outros países.

Trabalho conjunto já iniciou

O intercâmbio de pesquisadores para cooperação técnica foi um dos temas tratados. Um grupo especialmente designado da Embrapa vai dar sequência às negociações. A colaboração entre pesquisadores, na prática, já iniciou. A partir das conversas iniciais, pesquisadores da Embrapa Semiárido estão discutindo por videoconferência temas como o uso de água biossalina na agricultura. Os Emirados Árabes possuem grande experiência em usar água salina do subsolo em agricultura.

Acordo pode gerar ações abrangentes inclusive na África

O presidente Celso Moretti acredita que um dos grandes avanços deve ser no relacionamento institucional que permita ações em diferentes âmbitos. É possível, por exemplo, fazer parceria para produção de frutas e hortaliças nos Emirados Árabes em ambientes protegidos. A Embrapa tem expertise no assunto enquanto os EAU possuem equipamentos de alta tecnologia com deficiência de base técnica e experiência.

Outra possibilidade discutida é o intercâmbio de material genético, gestão de recursos naturais e biodiversidade, desenvolvimento de estudos em bioenergia e aquicultura, particularmente na produção de peixes em água com maior quantidade de sal.

O presidente da Embrapa avalia que “podemos ajudar em duas frentes: estabelecer parceria e negócios para ajudar a dar segurança alimentar nos Emirados Árabes e trabalhar juntos em outros países, particularmente no continente africano. Várias empresas dos Emirados Árabes possuem terras na África e estão produzindo lá com muito interesse em tecnologia, produtos, serviços e equipamentos.”

O Brasil ao longo das últimas cinco décadas foi o único país no mundo que conseguiu desenvolver tecnologia para o ambiente tropical capaz de gerar grande volume de alimentos. De importador, o Brasil hoje produz alimentos para alimentar 7 vezes sua população. “Alimentamos 1,4 bilhão de pessoas no mundo e os Emirados Árabes importam mais de 90% dos alimentos que consomem”, compara Moretti.

“A Embrapa tem tecnologia para o mundo tropical, eles possuem recursos para investimento e querem a nossa ajuda para produção não só nos Emirados, mas também na África. Nós queremos definir um modelo para esta parceria, assim como para outros países, mas com envolvimento do setor privado brasileiro para que eles aproveitem as oportunidades”, diz Moretti.

Quatro pilares de atuação nos Emirados Árabes

Durante a visita da missão aos Emirados Árabes, houve manifestação de interesse sobre a Embrapa ajudar a estruturar a agropecuária do País, o que facilitaria articular ações conjuntas em pesquisa, desenvolvimento e inovação. “Eles têm empresas públicas que cuidam de pesquisa, assistência técnica, produtores, uma universidade que trabalha com a área agrícola e o setor privado. Nossa ideia é ajudar na construção institucional para coordenar isso tudo, incluindo capacitação”.

O segundo pilar da atuação seria dar suporte para o zoneamento agrícola de risco climático. “Temos grande experiência no Brasil. Sabemos o que, onde e quando plantar em 44 cadeias produtivas em um país de dimensões continentais, com diversos biomas. É possível apoia-los neste desenvolvimento. Isso vai ajuda-los a tomar decisões e queremos participar ativamente do resultado que isso trará”.

Desenvolver um sistema territorial de inteligência estratégica é o terceiro pilar. Com isso, seria possível constituir um sistema em que seja possível ter informações sobre o quadro natural (como solos, relevo, pluviosidade, altitude), o quadro agrário (incluindo propriedades, tamanho, número de produtores), agrícola (exemplo: rebanho caprino, bovino, o que está sendo produzido em cada região), o quadro de infraestrutura (armazenamento, por exemplo) e socioeconômico. O acesso integrado ao conjunto de informações permitiria facilitar e dar qualidade à tomada de decisões, algo que já conseguimos no Brasil.

O quarto pilar é uma atuação cooperativa na África. “As empresas privadas dos Emirados Árabes estão produzindo em países como Madagascar, Sudão e Namíbia, mas não com tecnologias com a qualidade das desenvolvidas no Brasil. As empresas brasileiras de genética animal, vegetal e de maquinário, por exemplo, teriam grandes oportunidades. O objetivo é estabelecer uma parceria levando tecnologia desenvolvida pelo Brasil e levando o setor privado junto para aproveitar o espaço que vai se abrir nos Emirados Árabes e no Continente Africano”, explica. E dá um exemplo: a Embrapa tem variedades de trigo adaptadas aos trópicos. A adoção em larga escala na África pode significar uma grande oportunidade para empresas de sementes e de equipamentos do Brasil.

O presidente da Embrapa explica que todo o processo conta com a liderança da Ministra Tereza Cristina e o apoio da Apex-Brasil e da Agência Brasileira de Cooperação (ABC/MRE). “Na África, por exemplo, vamos além da parceria com os Emirados Árabes. A proposta é trabalhar em cooperação com instituições dos governos locais, mas também contar com o apoio da Apex e da ABC para abrir as portas e criar oportunidades para a área privada”. Ele diz que a intenção, no momento, não é abrir um escritório na África, mas atuar por projetos.

Um dos próximos passos é avaliar com a ministra Tereza Cristina e o Ministério das Relações Exteriores a criação de um escritório em Abu Dhabi com apoio do governo local. “Estou otimista com as possibilidades com a capacidade de o escritório impulsionar os projetos da Embrapa e os negócios do setor privado na região. Se houver um diagnóstico positivo, podemos criar ainda em 2020”, diz Celso Moretti.

Visita a órgãos de governo, empresas e institutos de pesquisa

A missão técnica a Abu Dhabi e Dubai incluiu visitas a empresas, órgãos governamentais e de pesquisa. Ela esteve na Camelicious Farm; na Fish Farm (empresa de criação e incubação de peixes marinhos); na Agthia Group (empresa líder na produção de alimentos e bebidas); na Al Dhahra Holding Company (multinacional especializada em produção de ração animal e produtos alimentares da cadeia de suprimentos); na Elite Agro (cultivo e comercialização de produtos alimentícios); e na Jenan Investment Company.

Outro local visitado foi a estação de pesquisa da ADAFSA (Autoridade de Agricultura e Segurança Alimentar de Abu Dhabi,  responsável pela agricultura, segurança alimentar, segurança alimentar e biossegurança). A Ministra Mariam Al Meheiri recebeu a comitiva brasileira em duas ocasiões durante os quatro dias de visita.

Além do presidente da Embrapa, a missão do governo brasileiro contou com presença do secretário de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação do Mapa e presidente do Conselho de Administração da Embrapa (Consad), Fernando Camargo, de um representante da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos e dos chefes da Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento; da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Alberto Vilarinhos; e da Embrapa Caprinos e Ovinos, Marco Aurélio Bomfim.

Fonte: DATAGRO

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