Desmistificando estereótipos: a força das mulheres no agro




Imagem: Aboissa Commodity Brokers 


Apesar das mulheres desempenharem um papel importante na agricultura e no agronegócio, setores fundamentais para a economia e segurança alimentar de muitos países, as mesmas enfrentam inúmeros desafios para participar ativa e plenamente, de maneira igualitária, nesse modelo de negócios.

A falta de recursos e oportunidades de desenvolvimento, que incluem desde falta de acesso à propriedade de terras a treinamento técnico, são algumas das barreiras que se destacam quando o assunto se refere a mulheres no agro. Inúmeras passam por discriminação, seja recebendo um salário menor ou tendo dificuldade de chegar em cargos de liderança.

É importante valorizar e reconhecer o papel das mulheres, já que segundo a Organização de Comida e Agricultura das Nações Unidas (em inglês chamado de Food and Agriculture Organization of the United Nations, ou, FAO), elas representam 43% dos trabalhadores no agronegócio do mundo.

Victória Hespanhol, broker da unidade Feed Ingredients da Aboissa, comenta que não sabia que o agronegócio contempla variadas camadas da sociedade e que hoje, perto de completar 6 anos na área, é apaixonada pelo que faz. “Fazer parte e contribuir para nossa economia, para as fazendas… Contribuir para o agro me motiva, mesmo sabendo que eu sou 1% [dos contribuintes]. Saber que faço a diferença me motiva.”

Em âmbito nacional, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, cerca de 27% dos estabelecimentos agropecuários no Brasil eram administrados por mulheres, enquanto que em 2019, eram cerca de 29% da mão de obra no setor agropecuário.

Jéssica Cotrin, também broker da unidade Feed Ingredients, relata que suas primeiras experiências in loco, visitando clientes e fornecedores, já era possível entender que o mercado de nutrição animal era composto em sua maioria por homens. “Eu acho que desde o começo a gente já percebe que, principalmente na parte de grãos e farelos, é um mercado 95% masculino. Nós [da Feed Ingredients], fazemos muitas visitas a fazendas, pecuaristas, fábricas de ração e o homem domina. É difícil você ver uma mulher. Então eu ficava com bastante vergonha, não sabendo muito como agir, com medo da pessoa não dar tanta credibilidade ou olhar pra gente de outra forma. Com o tempo a gente vai se adaptando.”

Não há um guia que instrua as colaboradoras a mostrarem seu potencial sem serem julgadas antes, mas para Zainab Alhamwi, que além de mulher é também muçulmana, é preciso que ela tenha um posicionamento mais firme na hora de tratar com clientes. “Mas é muito importante quando a mulher se mostra e se posiciona com firmeza. Porque aí ela se dá ao respeito, entendeu? É feio falar isso? Infelizmente! Mas por enquanto é assim que funciona o mundo hoje. A maioria tem que mostrar que não quer ser tratada dessa forma.”

É evidente que o machismo estrutural faz com que a mulher deva se esforçar duas vezes mais do que homens para serem levadas a sério. Não é incomum que clientes mal intencionados confundam cordialidade com flertes e ultrapassem o limite, fazendo com que as mulheres tenham que criar estratégias para não serem assediadas.

Fernanda Lopes, gerente da unidade Feed Ingredients, acredita que é importante ensinar sua equipe em como lidar com esse tipo de situação. É preciso muito jogo de cintura para poder impor limites sem perder a negociação, deixando evidente que o contato é profissional.

“Já fui xingada por esposas de clientes que achavam que pelo fato de termos um bom relacionamento, de perguntar se está tudo bem ou como foi o final de semana, tínhamos algo. Já tive situações em que na hora da visita, o cliente pede para a gente sair [com ele]. Tem que ir cortando essas atitudes. Eles querem chamar a gente no número particular e eu falo para as meninas não responderem se não for no profissional. Para reforçar que é trabalho, sabe.” relembra Fernanda.

Casos de assédio podem ter um impacto negativo na economia como um todo. Isso ocorre porque as mulheres que são alvo muitas vezes precisam abandonar seus empregos ou mudar de carreira, o que pode resultar em uma perda de talentos e habilidades valiosas para as empresas e o setor em geral. Sem a devida condenação de tais atos, o ambiente de trabalho pode se tornar tóxico e prejudicar a produtividade e a eficiência.

Portanto, é fundamental combater o assédio no ambiente de trabalho por meio de políticas e práticas que promovam um ambiente seguro e respeitoso para todos. Isso não só protege as mulheres de violência de gênero, mas também contribui para uma economia mais saudável e justa, uma vez que as mesmas podem ser tanto produtoras como consumidoras. A diversificação de pontos de vista também acrescentam em decisões e estimulam a construção de pensamentos coletivos.

Entre as entrevistadas, foi unânime que mulheres têm maior empatia com o outro. O que não quer dizer que homens não tenham essa capacidade, mas que mulheres conseguem acessar não só o profissional, mas também enxergam o ser humano por trás de cada colaborador. Essa troca cria e reforça o laço entre a equipe, que por consequência reforçam a ideologia e valores da empresa.

Para a diretora executiva Ariane Aboissa, que obtém um currículo com nomes de grandes multinacionais do mercado, sua visão de “empresa dos sonhos” vem de muitas decepções no mundo corporativo. Ela busca construir uma empresa que valoriza a equidade e coloca o funcionário como prioridade para um bom rendimento.

Ariane não se sentiu inferior ao ser convidada para ocupar um cargo tão importante, já que seu maior sonho era ser reconhecida profissionalmente. Seu maior impedimento, na realidade, foi quando se viu no papel de líder e mãe.

“Inicialmente não me reconhecia enquanto mãe. E eu me reconhecia muito enquanto líder. Então meu primeiro ano de maternidade foi muito difícil pra mim, já que eu pensava que estava tudo bem em trazer o trabalho pro meu tempo pessoal e que era errado fazer o oposto. Hoje eu consigo equilibrar melhor as coisas e dar um espaço para a “mãe Ariane” fazer o que [a mãe Ariane] precisa fazer, mas ainda é desafiador. Existe muito esforço para que as coisas aconteçam como elas precisam acontecer.” diz a diretora.

A maternidade, apesar de transformadora, também é criadora de estigmas que invisibilizam a mulher, afetando diversas áreas de sua vida, mas principalmente a profissional. Mesmo tendo planejado sua gravidez com antecedência, preparando seu time para a sua ausência, Muriel Malvasi, gerente da unidade Soft Oils, ficou estarrecida ao voltar para o ambiente de trabalho e ver que seu papel não era mais de liderança.

Entre conversas paralelas, muito era falado sobre a ausência da personalidade da antiga gerente e as reclamações mostravam-se um reflexo das avaliações negativas que Muriel recebia por parte da equipe. Foi duramente criticada por ser desorganizada e por estar dando mais atenção ao seu filho do que para as demandas do trabalho. Chegou um momento em que a recém-mãe não aguentou mais.

“Por mais que eu estivesse dando o meu melhor, isso não era visto. Eu era uma gerente horrorosa? Uma esposa horrorosa? Uma mãe horrorosa? O quê que eu sou no mundo? Foi horrível. Eu levei muito tempo e com muita terapia para voltar a ser gentil comigo mesma. Muito tempo mesmo. Me cobrava muito.”

É preciso quebrar essa reprodução de preconceitos, que por muitas vezes são replicados pelo próprio oprimido sem que ele mesmo perceba. Laura Freire, expert em girassol da Aboissa, relata que a descaracterização da mulher após a gravidez acontece de forma automática, já que é algo estrutural. “Isso nos descaracteriza, nós acabamos entrando na onda. É estrutural e não precisamos. Pra mim isso acaba dando uma fraqueza pra nós e eu acho isso uma coisa absurda, como se tudo se reduzisse a ser mãe. Isso é discriminatório, faz com que a gente seja essa pessoa. Essa pessoa que depois que engravida talvez não seja tão útil. E não é isso! A gente é muito mais! Não deve fazer diferença no seu trabalho se você é mãe.”

Após a maternidade, a mulher perde o posto de “ser humano” e se torna apenas mãe. Enquanto mães são catalogadas como incapazes e insuficientes, o homem no papel de pai não sofre com esse estigma. É preciso lutar para que as mulheres tenham igualdade de oportunidades no local de trabalho, independentemente de sua escolha de ser ou não mães. Por isso é fundamental apoiar e valorizar as mulheres que escolhem ter filhos, oferecendo políticas e práticas que permitam que elas equilibrem suas responsabilidades profissionais e familiares, sem prejudicar sua carreira.

Até mesmo no tempo livre, o trabalho de ser mãe não para. Para Ariane, desde o nascimento do seu filho, é difícil lidar com a sensação de que sua individualidade virou quase inexistente enquanto a de seu marido continuou a mesma. “O homem pode ter o tempo livre, que não vai mudar nada na vida dele. Mas assim, meu marido é incrível, tá? Meu marido é um pai, pessoa, marido e profissional incrível. Mas ele é homem. Então mesmo que ele se esforce muito ele não veio com “alguns chips” [para cuidar de uma criança] e eu de verdade não conheço nenhum homem que tenha vindo.”

Para que as mulheres se sintam mais envolvidas nos agronegócios, é preciso parar de fazê-las sentir que esse mercado não é para elas. Mulheres já estão presentes nessa realidade, seja em pequenas ou grandes empresas, em diversos setores, e merecem oportunidades igualitárias para mostrarem seus conhecimentos.

Além disso, é importante promover a conscientização e o diálogo sobre questões de gênero e igualdade para ajudar a mudar as mentalidades e comportamentos a longo prazo. Não seria agora a hora certa de agir para promover a igualdade de gênero e uma maior inclusão das mulheres no agro?

Por Vanessa Ferreira

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